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25 maio, 2013

Brasil em Portugal

2013 está sendo o ano do Brasil em Portugal. E eu aqui na Espanha. Certas coisas a gente não controla, não é? Participei do modo que estava ao meu alcance: acompanhei de longe a programação, as repercussões e recomendei aos amigos tugas (e não só :) que fossem aos shows conhecer um pouco mais da cultura brasileira.

O que eu mais gostei foi que a organização do evento caprichou muito na escolha das atrações e levou para Portugal artistas – tanto consagrados como novos talentos – que fogem do padrão mais popularesco que os portugueses estão habituados. E gringos em geral, se a gente parar para pensar.

Em três ocasiões em especial eu cheguei a pesquisar preço de passagem e tentei de todos os jeitos dar uma pausa na vida madrileña para ir prestigiar, nem que fosse com um bate-volta. Mas por algum motivo acabou não rolando em nenhuma delas. Escolhas que temos que fazer.

O primeiro de todos foi o show d’O Teatro Mágico, que é uma das minhas bandas preferidas de sempre. Adoro as letras das músicas e, mais que isso, fico muito feliz de acompanhar a evolução que o grupo está fazendo. De pensar que o primeiro show que vi deles foi numa Virada Cultural, em 2007.


Depois perdi Alceu Valença, que foi trilha sonora de tantas baladinhas com os amigos da faculdade. Por aquelas coincidências da vida, a Ludmy e o Átila, do Vou Contigo, estavam em Portugal justo naqueles dias e pegaram o mesmo trem que o Alceu, de Lisboa ao Porto. Ganharam CD autografado e tudo =)


Agora o concerto que deu mais dor no coração de ter perdido foi o do Quaternaglia, que aconteceu agorinha há pouco, em Lisboa. Não conhecem? É um quarteto de cordas que faz interpretações belíssimas de compositores brasileiros. Eles ainda passarão por Évora, Coimbra, Mafra e Porto nos próximos dias (tem o roteiro detalhado da turnê no site oficial). Se você passar por uma dessas cidades, não perca! 




E sim, o meu gosto musical é um tanto eclético =)

03 maio, 2013

5 anos na Europa

Pedacinhos do mundo

Hoje completa 5 anos que Marido e eu viemos viver na Europa. Eu lembro perfeitamente daquele sábado, dia 3 de maio de 2008, quando chegamos a Lisboa e a cidade estava deserta por causa do feriado prolongado.

Lembro de cada detalhe do quarto do hotel, do nosso primeiro jantar – bacalhau, claro! –, do friozinho primaveril, o vento com sol à beira do Tejo, do cansaço pela viagem e pelo fuso, mas a curiosidade falando muito mais alto e nos mandando explorar aquelas ruas que, hoje, nos são tão familiares.

Cinco anos se passaram e eu sempre me impressiono com o quanto a vida muda num espaço tão curto. Se há 6 anos alguém me dissesse que nos próximos anos eu iria casar, mudar para Portugal e depois Espanha, viajaria por mais de 15 países, conheceria pessoas de todos os continentes, faria um mestrado que me enveredaria pelos caminhos do turismo e da sustentabilidade e expandiria meus horizontes de uma maneira tão visceral que simplesmente ficaria impossível voltar a ser aquela Kelli de 2007, eu riria e pensaria: “ela só acertou a parte do casamento...”.

Não tem como falar nos últimos anos sem que o peito fique cheio de gratidão por todas as experiências incríveis que temos tido o privilégio de viver. Privilégio daqueles bem grandes. Confesso que por muitas vezes questionei se merecia viver tudo isso. Até que duas pessoas que respeito muito, em momentos distintos, me disseram mais ou menos a mesma coisa: “Se a vida está te dando uma oportunidade, seja ela qual  for, aceite, agradeça e retribua”.
 
Lisboa querida
A partir daí, tudo ficou mais leve porque nós sabemos que estamos em Madri hoje. O amanhã é uma grande incógnita que pode reservar a nossa volta para o Brasil ou a ida para qualquer outro lugar no planeta. É por isso que aproveitamos o que a Europa nos oferece como se não houvesse amanhã. Suas estruturas, acessibilidade, o constante conviver com o diferente. E é por isso que a cada oportunidade de conhecer um lugar novo, as malas já estão prontas. Chega a ser engraçado, pois quando uma pessoa nos convida para visitar a sua casa, eu invarialmente pergunto se ela está certa daquilo, porque nós vamos. De verdade.

Volte e meia Marido e eu ouvimos que temos sorte. Dizem por aí que sorte é quando o preparo encontra a oportunidade. Pensando assim, nós realmente temos muita sorte. A sorte de amar,  tolerar e respeitar um ao outro; a sorte de ter uma família que entende que temos rodinhas nos pés e apoia as nossas escolhas; a sorte de ter amigos incríveis; a sorte de estarmos abertos para o que quer que seja. Sabem... eu acredito demais na “lei” que diz que quando a intenção é verdadeira, o universo conspira para que as coisas fluam. Funciona. Juro.

É claro que nem tudo são flores. Viver na Europa não se resume às fotos que publicamos no facebook ou instagram. Antes fosse :) Lidamos constantemente com a frustração de estar longe em todas as datas especiais, acompanhamos o crescimento do nosso afilhado e sobrinhos à distância, cogitamos voltar para o Brasil mês sim, mês não por causa da saudade da família e dos amigos.

Não importa quantos imigrantes existam no país, aqui somos sempre estrangeiros, leva tempo até ganhar a confiança dos locais (mas uma vez conquistada, temos amigos para a vida), temos que aprender como a cidade funciona do zero e sem a referências dos nossos pais, que não estão aqui para nos dizer onde se faz o documento de identidade, onde fica o posto de saúde, como se faz para abrir uma conta no banco, ou ter uma linha de celular, que nas farmácias não vendem absorvente higiênico, que o bilhete de ônibus se compra na tabacaria, que na padaria só se vende pão e que para tomar café tem que ir ao bar/cafeteria ao lado.  
Madri encantadora

Todas aquelas referências de infância e adolescência, esquece. Não entendemos as piadas, não temos embasamento para discutir a política, não reconhecemos os famosos, nem sequer conhecemos a programação da tevê ou sabemos quais são os programas que todo-mundo-vê tipo a novela das oito. É preciso paciência para lidar com o preconceito, com a saudade que bate do nada, ou com o inverno bem mais rigoroso que o brasileiro.

Mesmo assim, a contrapartida de viver fora do Brasil esses 5 anos tem valido muito à pena. Para onde quer que os ventos nos leve nos próximos anos, essa bagagem que estamos adquirindo vai nos acompanhar em todos os campos: pessoal, profissional, intelectual, cultural, emocional. Hoje somos mais flexíveis, super cúmplices e parceiros, revimos um montão de valores e conceitos, aprendemos que precisamos de pouco para viver bem e sermos felizes e que uma vez picados pelo bichinho viajadeiro, não tem mais volta: malas, tickets, avião, trem e caminhadas em busca de coisas novas sempre farão parte da nossa rotina.

13 março, 2013

Dica ecológica: conheça o seu bairro

A dica desta semana é bem simples: sabe aquela caneta vermelha, a fita adesiva para fechar um embrulho de presente, um CD virgem, uma meia-calça para a festa de mais tarde, um botão novo para a camisa, a lâmpada que queimou, o leite que acabou no meio da receita, ou um prego para pendurar aquele quadro que está encostado há séculos?

Ao invés de correr para um shopping ou para uma grande franquia, que vende de tudo e mais um pouco, porque não sair caminhando pelo seu bairro e contribuir para o comércio local?

Vocês podem me perguntar “mas porque, Kelli, se num centro comercial eu encontro tudo o que busco, há opções de marcas, vejo outras coisas que posso vir a querer, e ainda posso aproveitar para comer num restaurante, tomar a sobremesa em outro e fechar o passeio com um café delicioso numa cafeteria x?”

Bem, daí eu respondo: porque assim você não vai precisar dirigir até o shopping, nem pagar estacionamento – ou pegar um transporte público. Esse é o primeiro ponto. Benefícios diretos: você faz exercício, não se estressa com o trânsito e economiza. O segundo: descobre que naquele armazém com a vitrine empoeirada pode haver (geralmente há) coisas interessantes e que atenderão sua necessidade perfeitamente.


Em Lisboa, justamente para diminuir os deslocamentos e promover o comércio de rua, a Câmara Municipal passou a editar guias dos principais bairros da cidade, com telefone, endereço e horário dos estabelecimentos, além de entrevistas com os comerciantes – o dono da padaria, o garçom do restaurante, o senhor da banca de jornal, da adega, da quitanda, enfim, todos aqueles anônimos do cotidiano.

Há também espaço para personagens como a senhorinha que há 50 anos compra flores no mesmo lugar e todas aquelas pessoas que fazem parte do dia-a-dia dos vizinhos. Elas podem não saber como se chamam, nem onde moram, mas sempre se encontram na hora de comprar pão, levar o cachorro para passear, pegar o ônibus, na fila do banco ou do correio.

O guia é distribuído gratuitamente nos próprios comércios e, se não me engano, a edição é anual. Com a mudança de casa, o único que sobrou foi esse da foto, mas uma coisa bacana é que ao longo dos quatro anos que vivi ali, acompanhei a evolução editorial. Os primeiros que li tinham uma edição mais simples, quase amadora, e agora já ganharam um layout mais moderninho, para chamar a atenção também dos turistas.

Imagino que no seu bairro não tenha esse tipo de revista. Tudo bem. No meu aqui em Madri também não há e tenho conseguido me virar bem. Fica a sugestão: na próxima vez que precisar de algo, antes de correr para uma grande loja, dê uma volta pelas ruas à volta da sua própria casa. Espero que reserve boas descobertas ;-) 

12 dezembro, 2012

A tal mudança

Tchau, Lisboa!

Aconteceu mais ou menos assim, uma e outra vez, desde que soubemos que íamos deixar Lisboa.

Marido e eu, mega entusiasmados, contávamos aos nossos amigos:

- VAMOS NOS MUDAR PARA MADRI!

E recebíamos um suspiro como resposta, seguido do comentário:

- Ah, mas vocês vão deixar Portugal?!?!?!?!?!

Foi assim que deixamos Lisboa, depois de quatro anos incríveis: com muitas despedidas dos amigos, dos cafés, dos miradouros, dos 101 pratos com bacalhau, dos pastéis de Belém, do Bairro Alto, entre tantas outras coisas que aprendemos a amar ali.

E viemos de braços abertos para Madri, que já nos acolhe há oito meses e nos presenteia com descobertas a todo instante. Nós, 58 caixas, 7 malas, 2 bicicletas, 1 violão e apenas duas plantinhas que sobreviveram à viagem de 600 quilômetros de caminhão entre as duas cidades.

Olá, Madri!

Como vocês podem imaginar, histórias novas para escrever aqui não faltam! PROMETO que as atualizações no blog serão constantes, para dividir com vocês nossas novas aventuras e perrengues nesse país chamado Espanha.

12 janeiro, 2012

Sabedoria de mãe

Manoela estava contando para uma paciente ao meu lado que, em sua casa, quem cozinha é ela. O filho, com 21 anos, no máximo frita bifes. Nem ao talho (açougue) ela o deixa ir, porque “comprar carne é uma coisa muito séria”, enfatizou.

A senhora que recebia massagem e escutava, no alto dos seus 60 e poucos anos, contestou:

“Tem que deixar o menino aprender, Manoela. Mesmo que faça errado, tem que deixar ele fazer as coisas sozinho. Sabe Deus que tipo de mulher ele vai arranjar. Hoje em dia é preciso estar preparado para tudo”.

Eu ri.

06 janeiro, 2012

A universidade dos pés descalços

Hoje, a Jú Mantovani compartilhou esse vídeo comigo, sobre uma universidade na Índia onde só podem ser professores pessoas sem formação universitária. É uma faculdade para pessoas pobres, que ensina o que é importante para o desenvolvimento local, partindo das necessidades da realidade deles como cenário principal.


Esse vídeo me lembrou uma conversa que ouvi alguns meses atrás, num restaurante. Estavam quatro senhores numa mesa e um deles disse:
Daqui alguns anos, quando precisarmos de um eletricista, não vamos encontrar porque só vai existir doutores*.
Outro respondeu:
- Pois! E a culpa é nossa porque fomos nós que obrigamos os nossos filhos e netos a andarem pela faculdade.

Silenciosamente, eu concordei porque leva ao tema do vídeo e a um questionamento que eu já tinha levantado aqui antes: formação demais pode ser frustrante.

A definição que a universidade dos pés descalços dá para profissional é a melhor: “é alguém que tem uma combinação de competências, confiança e crença” e, para exemplificar, mostra pessoas analfabetas que constroem centrais de energia solar em aldeias na Índia, África e Oriente Médio. Eles não sabem assinar o próprio nome, mas isso não os impede de transformar a realidade de centenas de famílias.

É ou não é para nos fazer pensar?

* Em Portugal, toda pessoa com formação superior pode ser tratada como doutor (a). 

29 dezembro, 2011

Fim de ano econômico em Lisboa

A pedido da Pri Fiorin, para escrever esse post aqui, eu tirei um fim de tarde para fotografar a decoração de Natal de Lisboa e a constatação: se dependesse de iluminação exuberante, o Natal foi bem apagado por aqui... O que não quer dizer que foi triste, vejam bem.


Em meio a notícias sobre a crise, medidas de austeridade, cortes de postos de trabalhos, de serviços, de benefícios e de salários, nada mais coerente do que cortar o que de fato é um desperdício: a iluminação de Natal.

A Câmara de Lisboa não enfeitou os monumentos nem as principais avenidas. Iniciativas que apareceram aqui e ali foram patrocinadas por empresas privadas ou associações de comerciantes/ moradores e mesmo assim com a preocupação de reutilizar materiais como plástico e usar lâmpadas LED, que consomem menos energia.

Passa a mensagem de que mesmo no meio de dificuldades é possível usar a criatividade e celebrar na mesma. Afinal, o mais importante do Natal é estar com aqueles que são especiais para nós, não é?


Repararam? Peças montadas com vários puxa-sacos juntos

Sinceramente, espero que 2012 venha com bons ventos para Portugal e para o mundo. 

16 dezembro, 2011

Pronomes de tratamento

No primeiro dia de fisioterapia, eu estava na sala de espera quando a Manoela chamou: “Dona Kelli”. Ao me ver, imediatamente corrigiu: “Ah! É Menina Kelli”.

Pois é! Em Portugal há esse modo peculiar de chamar às mulheres mais novas. O normal, segundo uma amiga explicou, é usá-lo para “raparigas solteiras”. No meu caso, uma senhora casada, já não era para ser tratada por Menina, mas acontece sempre. É isso que dá ter um ar jovial :)

É sério. Eu já tinha sido tratada por Menina em cafés, restaurantes, lojas e na faculdade. Até aí, para mim, isso era um hábito do cotidiano falado. Eis que um dia eu estava reservando uma viagem e no site da companhia aérea tinha as opções: Sr., Sra. e Menina. MENINA, gente. Imaginem a pessoa na fila do check in, com mais de 30 anos nas costas e uma passagem emitida para “Menina”? Hilário.

O interessante é que o inverso não acontece. Os rapazes solteiros nunca são tratados por “Menino”. Informalmente são gajos, assim como as mulheres são raparigas. Gaja não existe. Quer dizer... existir, existe, mas é preciso muuuuuuita intimidade pra tratar uma mulher assim, porque equivale à mulher de quinta categoria.

Aliás, uma informação importante para os brazucas: tratar as pessoas por “moço” ou “moça” é super pejorativo. O garçom pode ter 17 anos, o modo correto de tratá-lo é por senhor.  

Houve uma vez que eu gerei a maior polêmica com os meus colegas do mestrado ao perguntar se havia algum problema em tratar o meu orientador por você. Teve os que levantaram a bandeira da informalidade, mas outros – a maioria, diga-se – defenderam o respeito à hierarquia e tratam os seus orientadores por Sr. Prof. Doutor.

Eu tenho todo respeito pelo meu orientador e pelos demais professores do meu mestrado, mas Senhor-Professor-Doutor é um bocadinho formal demais. Depois dessa discussão eu adotei outra forma de tratar as pessoas muito comum em Portugal: usando a terceira pessoa do verbo. Tipo: “o que o professor acha?” ou “o professor disse...” com ele sentado bem na minha frente. Agora já sai naturalmente, mas no início...

Para terminar esse post gi-gan-te, o modo de se referir às crianças, o mais fofo de todos: putos e miúdas.

14 dezembro, 2011

Manoela, a fisioterapeuta

Se um dia eu escrever um livro sobre Portugal, o nome será algo parecido com Histórias do café. São tantas cenas do cotidiano – e por isso mesmo – interessantes que eu vejo enquanto tomo uma chávena (aka xícara) de café que renderiam boas crônicas.

E por café leia-se: fila do mercado, sala de espera, ponto de ônibus, taxi, aeroporto e qualquer outro lugar onde conseguimos observar as pessoas e os seus comportamentos. 

Hoje, o “café” era a sala de fisioterapia onde estou tratando uma tendinite no joelho. Manoela, minha fisioterapeuta, é angolana e super serelepe. Consegue tratar três pacientes ao mesmo tempo com a maior habilidade.

Entre um assunto e outro, ela lamentou o fato de, neste ano, a clínica ter dado férias coletivas a todos os funcionários no verão. Por conta disso ela não ia ter aquilo que mais gosta no inverno: uma semana de férias em dezembro ou janeiro. E explicou: “é TÃO bom saber que vai estar frio e eu não preciso sair de casa!”.

Tem como não amar? :-)

Hoje foi o meu segundo dia, de um tratamento com 15 sessões. Já estou ansiosa para descobrir o que os próximos encontros com Manoela reservam.

08 dezembro, 2011

Cenas do cotidiano

Em Lisboa, garçons portugueses que não são rabungentos, são super simpáticos. Alguns se metem até a ser piadistas. Como o que encontramos hoje numa marisqueira.

Minha amiga falou: Eu não vi creme de mariscos no cardápio...

O garçom diz: “Ah, só há às segundas” e começa a rir.

(passam-se uns segundos)

Enfim eu mato a charada: Quando o restaurante encerra (não abre)?

Garçom (sorridente): Pois! Comemos o creme de mariscos em casa.

30 novembro, 2011

Referencial

Uma típica pastelaria portuguesa

Os portugueses não tem fama de padeiros no Brasil por acaso. Por qualquer cidade que a gente passe, sempre há pelo menos uma boa pastelaria, com um grande forte para os doces.

Brasileiros quando se mudam para Portugal estranham um pouco porque há pouquíssima variedade de salgados. Além disso, são servidos frios. Em um ou outro lugar o atendente pergunta se queremos que aqueça, mas isso não é regra.

Pois bem. Entro eu numa pastelaria, procuro por salgados e encontro uns três ou quatro, com cara de assados/ fritos três dias atrás. Pergunto:

- Os salgados que há são só esses?

O senhor responde:

- Sim. São TODOS esses.

Tudo é uma questão de ponto de vista, não é? 

29 novembro, 2011

Quando um preso cruza o seu caminho

Imagine a cena: você está sentada numa sala de espera de uma clínica para fazer um exame. Você nota a presença e o movimento de dois policiais para lá e para cá. Daí ouve a recepcionista perguntar ao telefone se o recluso (um prisioneiro) está pronto para ser buscado.

Você pensa que não ouviu direito e se dirige para a sala de um dos exames. Quando vai trocar de sala vê um homem acompanhado pelo guarda, vestido com um roupão e com algemas nas mãos sendo levado para a mesma sala que você acabou de sair.

Filme? Não.
Hospital público? Também não.

Havia só um médico e só um técnico. Você fica à espera enquanto o prisioneiro é atendido. Estica as pernas, faz xixi e se pergunta: “Mas que raio?”.

Cabem muitas sensações e interpretações no espaço de alguns minutos. E você passa da mais completa indignação para uma inacreditável admiração. O seu primeiro instinto é: “nunca mais volto aqui” para depois ser surpreendida com o próprio pensamento: “Não é incrível? Eu vivo numa sociedade que dá a um prisioneiro o mesmo padrão de atendimento que uma pessoa que pode pagar por tal”. Porque independente do crime que ele cometeu, ter acesso a tratamento de saúde é um direito universal.

Isso te faz lembrar que embora naquele dia em especial você estivesse pagando o valor integral porque se tratava de um exame muito específico – e a autorização do Estado demoraria muito mais do que você estava disposta a esperar –, em outras circunstâncias, naquela mesma clínica, você já tinha sido atendida com a mesma atenção e pagando apenas o valor mínimo cobrado para pacientes subsidiados pelo Sistema Público de Saúde.

Também te faz descobrir preconceitos que você nem sabia que tinha. Porque de tão utópico que parece ser o conceito de “direitos iguais para todos”, você nem imaginava que ele pudesse ser posto em prática justo ao seu lado. Felizmente, entre tantos pensamentos desconexos, você voltou para casa grata por ter presenciado e refletido sobre tudo aquilo e por ver que entre tanta corrupção pelo menos alguma coisa boa é feita com os impostos que você paga. 

24 novembro, 2011

Greve geral

Amanhã, dia 24 de novembro, acontecerá a greve geral em Portugal, exatamente um ano após a manifestação de 2010. Não se fala em outra coisa, como não poderia deixar de ser. E de novo eu me impressiono com a organização, a adesão e a compreensão de [quase] todos.

Ontem, no centro de saúde a atendente me recomendou: “Volte aqui amanhã ou na sexta. Mas olha, na quinta não porque será greve”. Uma amiga foi para a Espanha e adiou a volta para o dia 25 e assim segue, cada um se adaptando ao dia em que tudo vai parar.

Se pelo menos as pessoas soubessem o poder que realmente possuem. Elas enchem as ruas para protestar contra os governantes, mas no dia de ir às urnas – como aqui o voto não é obrigatório – deixam que uma minoria decida por elas. Gritam palavras de ordem contra os Estados Unidos com uma lata de coca-cola numa mão e um iphone na outra. Oi, congruência?

Eu sou muito solidária à causa em questão. Muito mesmo. Mas também sou da opinião de que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Se a mudança começa indo às ruas para mostrar a indignação, ótimo, mas todo mundo sabe que não fica por aí. 

15 novembro, 2011

Sem tempo para mimimi

Hoje é feriado de Proclamação da República no Brasil. A calmaria no twitter e no facebook mostra que muita gente colocou o pé na estrada desde sexta. Amanhã e quarta, ao contrário, serão os dias que vão chover novas fotos e relatos de como o feriado foi aproveitado. Ou não.

Era o caso de ficar de mimimi, porque em Portugal é dia normal? Eu não acho. Principalmente porque em dezembro há dois feriadões, um no dia 1 pela Restauração da República e outro no dia 8, por causa da Imaculada Conceição.

E sabe o que é melhor disso tudo? É que, como estamos longe das nossas famílias, passamos alheios ao frenezi de fim de ano. Parece a maior Pollyannice, mas é verdade.

Enquanto muitos aproveitam a folga para as últimas compras – naquela loucura que se transformam os centros comerciais –  Marido e eu exploramos a cidade com calma, só observando o corre-corre, pegamos sala de cinema praticamente vazia ou simplesmente ficamos em casa, montamos a árvore de Natal e curtimos o friozinho do inverno na companhia de um bom vinho português.

02 novembro, 2011

Bem-vindo, Outono!

Este ano, se o Outono demorasse só mais um pouquinho para chegar aqui nas bandas de Portugal, ia perder a vez para o Inverno. Mas cá está ele. Dias com um céu azul e aquele vento que corta a pele desprotegida; dias com chuva por horas seguidas, para a alegria das plantas.

Além de cuidar do meu guarda-roupa, guardando vestidos, biquinis, blusinhas de alça e sandálias, para dar lugar a malhas, cachecóis, luvas, botas e casacos; a casa também "troca de roupa".

A colcha de retalhos feita pela Donana vai para o sofá
E no lugar dela, o edredom, bem mais quente


A rede vai descansar longe do quintal...

Assim como as bicicletas, que vão para o canto que as protege da chuva. Porque, como eu li no facebook de um amigo dias atrás...

Foto assim de novo, pedalando de bermuda e camiseta, só para o ano

25 julho, 2011

Fragmentos



Do fim de expediente da última sexta-feira
De uma tarde de verão lisboeta, com sol, céu azul e vento
Do rio Tejo, com a Torre de Belém e o Padrão do Descobrimento às suas margens
Da ponte 25 de Abril
Das pessoas que vão passear por ali
Dos turistas registrando o momento
Do Alberto Caeiro
Da Amy Winehouse
Dos pescadores
E de mim com os meus patins :-)

O vídeo (inspirado nesse aqui ó) está meio tosco, eu sei, mas é o primeiro que faço com edição e tal então espero que gostem :)

16 julho, 2011

O poder do marketing

No fim de semana passado aconteceu a Festa do Pão em Mafra, uma cidade que fica a 30 Km de Lisboa e onde tem um palácio gigante, que também já foi hospital. Como o pão é um dos itens gastronômicos que o português mais se orgulha e “festas do pão” acontecem por todo o lado no país, a Câmara Municipal de Mafra resolveu promover em paralelo um “passeio pedestre” pela Tapada de Mafra – uma mata que circunda o palácio, onde os reis costumavam caçar. 

Lá fomos Marido e eu com um casal de amigos para a tal trilha de 10,6 Km. Nós e outras 300 (!) pessoas. O sábado amanheceu nublado e quando chegamos no ponto de partida do passeio começou a garoar. Já tínhamos levantado às 7h da manhã mesmo, então deixamos rolar. Pouco tempo depois o céu abriu e começou a fazer sol. 


Olha, eu sei que é verão, mas tirar tanta gente da cama cedo, num dia com o céu pouco convidativo e fazê-las pagar cinco euros para fazer uma trilha não é pra qualquer um não. A Câmara de Mafra mandou muito bem na ação de marketing. Eu já fui em caminhadas do mesmo gênero no verão passado que não juntaram 20 participantes.

O tempo todo fomos acompanhados por guias locais que iam à frente e no final do grupo, para evitar que alguém se perdesse. Além disso, no meio do percurso nos ofereceram um piquenique, com sucos, frutas, água e dava direito a um pão de Mafra com chouriço quentinho – acabadinho de sair, como dizem os tugas. No final da caminhada, ele caiu como uma luva. Soube muito bem, como eles falam.

O caminho [ainda] não está sinalizado com aquelas marcações universais de trilhas, mas com o mapa da cidade que é fornecido no posto de informações turísticas dá para dar umas voltinhas pelo parque, visitar o palácio e – o principal – provar o famoso pão de Mafra e os doces típicos de lá. 

Nunca um pão com chouriço me custou tanto...

15 julho, 2011

Prazeres e desprazeres de ser imigrante

2011 é ano de renovar o visto para continuar vivendo legalmente em Portugal. E se tem uma coisa chata de se viver fora do Brasil é lidar com toda a burocracia que isso envolve. Papéis e mais papéis para provar que você é uma pessoa do bem, paga suas contas em dia, não está aqui para matar ninguém e, o que algumas pessoas simplesmente não entendem: está fora do seu país por ESCOLHA, não vive de favor em outro país, pelo contrário, é o seu trabalho – e os impostos que você paga – que contribui para a economia dele continuar girando.

Ser imigrante é uma chatice nessa hora. Porque os imigrantes são colocados todos no mesmo saco, não importa o passado, a formação, a índole, nada. Você é imigrante? Então siga para aquele balcão. Ponto.

Mas daí que ser imigrante nos faz lidar com situações impensadas que chegam a ser engraçadas, de tão fora do nosso senso-comum. Por exemplo: no início do ano, Marido e eu mudamos de apartamento. E um dos papéis que precisamos levar ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (aka imigração) é um “atestado de morada” fornecido pela Junta de Freguesia, que é uma espécie de mini prefeitura do meu bairro, com presidente eleito pelos moradores e tudo.

As duas casas – antiga e atual – ficam a apenas dois quilômetros de distância, mas em Juntas de Freguesia diferentes. Detalhe: as Juntas são entidades autônomas, ou seja, cada uma tem o seu próprio procedimento para fornecer os mesmos documentos. Contextualização feita, continuemos.

Há dois anos atrás, eu solicitei o tal atestado na Junta antiga. Levei uma conta de luz e pronto. Dois dias depois o atestado estava pronto. Fui à Freguesia nova com meus  documentos e a conta de luz mais recente e a senhora disse que ali o procedimento era outro.

Para provar que eu vivo onde eu vivo, não adiantava nem a conta do banco, eu tinha que levar para ela uma folha assinada por dois comerciantes do meu bairro dizendo “Sim. Sim. A menina Kelli e o Sr. Engenheiro Luis vivem cá. Eu os vejo todos os dias”.

É por essa e por outras que viver fora é uma experiência que vale muito à pena. Em pleno ano de 2011, século XXI, a gente ainda encontra lugares onde a palavra do jornaleiro e do dono do café da esquina vale mais que a conta de luz paga em dia.

E o que importa: visto renovado nas mãos para mais dois anos de Europa :)

10 julho, 2011

Água da torneira SIM!

De tão habituada que já estou a beber água da torneira desde que me mudei para Lisboa, quando eventualmente compro água mineral engarrafada, acho que tem gosto esquisito. 

É engraçado como o nosso referencial muda. Hoje em dia acho estranho quando vou a um restaurante ou a um café onde não me é dada a opção de beber água da torneira. Tanto em Portugal quanto em grande parte da Europa, a água é tratada e própria para o consumo.

Hoje descobri que há um projeto em São Paulo para que restaurantes passem a servir Água na Jarra. Simplesmente sensacional. É econômico para o estabelecimento, para o cliente e, principalmente para o meio ambiente.

Deixo vocês com um vídeo que esclarece bem a questão do mercado da água mineral. Talvez depois de assisti-lo vocês decidam substituir o galão de água de cinco litros por aquele modelo mais retrô: o filtro de barro! Ou um modelo mais moderno de purificador. Aposto que opções não faltam e a natureza agradece.


03 julho, 2011

Mesa do jardim: antes e depois

Acho que eu nunca contei... quando as pessoas trocam os móveis da casa, é super comum por aqui elas colocarem na porta do prédio, para outras que queiram ou precisem pegar. A gente vê sofás, aparelhos elétricos, colchões, pedaços de móveis, roupas, livros e por aí vai. Tudo o que não serve mais vai para a rua. Essa prática não é exclusiva de Portugal, rola na Europa toda. Eu conheço pessoas que montaram a casa inteira só com coisas do “lixo”.

Algumas semanas antes de mudar de apartamento, um vizinho colocou uma mesa de jardim para fora. Ela estava bem detonadinha, com um pé quebrado, mas mesmo assim quando eu a vi alucinei porque na casa nova tem quintal.

Lá fomos Marido e eu desmontar a mesa inteira para faze-la caber no carro. Em pleno mês de janeiro, no auge do inverno. Delícia. Ela ficou encostada no quintal por uns dois meses.

 
Até que um belo dia ia ter uma almoço aqui em casa e tinha chegado a hora de criar coragem para  montá-la. Marido deu umas marteladas na perna manca e ficamos uns tempos usando-a do jeito que estava, com a madeira envelhecida e suja. 

Se concentrem na madeira ;)

Daí, num dos primeiros dias de sol e céu azul da primavera, compramos lixas, óleo e demos aquele trato na mesa. Eu nunca ia imaginar que essa dupla fizesse um milagre tão grande. Vejam a transformação.

Primeiro passo: lixar. Metade feita e metade por fazer
Segundo passo: polir. Passamos duas camadas de óleo de teca em spray

E já está! Detalhe para o caminho de mesa by Donana
 
Uma amiga nos disse que ficamos com uma agradável sala de jantar de verão. Eu concordei :-)